Dr. Jorge Maciel, presidente de “Colégios Fomento” (Portugal), habla para mktonline.net

Uma educação diferenciada assente na especifidade de cada sexo: uma questão de ritmos, formas de estar e de aprender… Os Colégios Fomento apostaminteiramente no modelo de educação diferenciada. O Dr. Jorge Maciel, enquantopresidente, revela alguns dos pontos e mais-valias que justificam a divisão entre

MktOnline – Para além da evidente divisão por sexo, em que consiste concretamente o ensino diferenciado?
Jorge Maciel – A separação por sexos é apenas o pressuposto de uma educação que procura ter em conta as diferentes características, modo de ser e de aprender, forma de olhar o mundo e de se relacionar com os outros e ritmos de crescimento e amadurecimento de rapazes e raparigas.
Esta separação possibilita uma mais fácil e eficaz utilização de metodologias e estratégias de ensino que melhor se adequam às características de cada sexo.
MktOnline – Em termos de evolução, ou melhor, formação pessoal das crianças/jovens, de que forma pode
este modelo de ensino ser uma mais valia?
Jorge Maciel – A educação diferenciada, ao criar zonas de conforto a rapazes e raparigas, facilita um crescimento mais autêntico em função de aptidões e objectivos pessoais, evitando a reprodução de estereótipos e tornando-os, assim, mais livres nas suas escolhas.
A educação diferenciada permite estimular as capacidades naturais de ambos os sexos, corrigindo de forma
direccionada as suas debilidades. Não se trata de limitar as opções dos estudantes mas, pelo contrário, de maximizar o seu potencial.
MktOnline – Verificamos, há já alguns anos, a quase extinção deste modelo diferenciado. Qual o impacto da edução de “rapazes e… raparigas” levada a cabo separadamente?
Jorge Maciel – O modelo de educação diferenciada funcionou com sucesso até á década de sessenta. A partir daí, por razões que têm a ver com o legítimo desejo de igualdade de oportunidades entre homens e mulheres e com a massificação do ensino, foi feita a opção pela escola mista.
Quarenta anos depois, o elevado abandono e insucesso escolar, particularmente entre os rapazes, com as raparigas a tornarem-se rapidamente a maioria da população universitária, a suposta superioridade do ensino misto começou a ser questionada em todo o mundo.
Em países como a Inglaterra, a Austrália e o Canadá, nos primeiros lugares dos rankings das escolas com melhores resultados académicos estão sempre escolas de educação diferenciada. Mesmo em Portugal onde apenas os quatro Colégios Fomento (Planalto, Mira Rio, Horizonte e Cedros) fazem educação diferenciada, é notória a sua presença constante nos lugares cimeiros dos rankings elaborados pelos diversos meios de comunicação social, com base nos resultados dos exames nacionais de mais de 600 escolas.
MktOnline – Qual a receptividade dos pais/encarregados de educação de hoje aos valores subjacentes aos Colégios Fomento
Jorge Maciel – Além de uma educação de qualidade, fundamental ao sucesso académico dos nossos alunos, procuramos, em estreita colaboração com os pais, que os alunos desenvolvam um vasto e exigente conjunto de aptidões pessoais e sociais que os transformem em homens e mulheres livres e responsáveis, empenhados na prossecução do bem comum e de um mundo mais justo, capazes e aptos para as mais exigentes tarefas na sua vida universitária, profissional e familiar.
Estas razões, aliados aos bons resultados obtidos justificam, a nosso ver, a procura deste projecto educativo que vimos desenvolvendo há 32 anos.
Isto aponta para uma outra questão, que se prende com a falta de liberdade das famílias na escolha da escola para os seus filhos, condicionada por critérios de proximidade da área de residência (no que respeita às escolas públicas) e por razões financeiras (nas escolas privadas). Muitas famílias vêem-se, assim, impedidas de matricularem os seus filhos nos nossos colégios, apesar da sua plena identificação com os princípios, valores e objectivos do projecto educativo que desenvolvemos.
MktOnline – Quais as bases para o desenvolvimento de uma educação dividida, fisicamente, em homens e mulheres?
Jorge Maciel – Muitos estudos na área da neurociência mostram uma clara diferença na estrutura e funcionamento dos cérebros masculinos e femininos, com evidentes reflexos na forma como recebem e processam a informação e nas maiores ou menores aptidões para determinados campos de aprendizagem.
Sabe-se hoje que, fruto dessas diferenças, os rapazes são mais competitivos e por isso adaptam-se melhor a um sistema de ensino em que se lhes exijam desafios individuais e prazos curtos. As raparigas são, em geral, mais colaborativas e aprendem melhor com trabalhos em grupo, exposições, etc.
Por outro lado, o pensamento das raparigas é mais indutivo (vai do particular para o geral), enquanto o dos rapazes é mais dedutivo (parte de uma norma geral para chegar às conclusões). Um dos efeitos desta realidade é as raparigas reterem mais os dados subjectivos, enquanto os rapazes retêm mais os dados objectivos.
Os rapazes têm dificuldade em concentrar a sua atenção em mais do que uma actividade, com a vantagem de
estarem inteiramente absorvidos nessa tarefa, enquanto as raparigas facilmente se envolvem, com êxito, na
execução simultânea de várias tarefas.
MktOnline – Há influência de alguma corrente internacional na sua implementação?
Jorge Maciel – A educação diferenciada não resulta da influência de qualquer corrente internacional, nem deve ser associada a razões de natureza ideológica, filosófica ou religiosa. Poderíamos dizer, de uma forma simplista, que é apenas uma questão de justiça e de eficácia. Justiça porque permite tratar de forma diferente o que, de facto, é, diferente e de eficácia uma vez que todas as análises sobre os resultados académicos e de desenvolvimento pessoal deixam bem patentes o sucesso das escolas que optem por esta forma de organização do ensino.
MktOnline – Em termos de comunicação e divulgação, que tipo de acções são desenvolvidas?
Jorge Maciel – Esse é um processo que estamos agora a iniciar e o Seminário de 12 de Fevereiro no Porto foi
como que o princípio de um debate que gostaríamos de ver alargado a todos quantos se interessam pela educação em Portugal.
O passo seguinte será a publicação, antes das férias de Verão, da versão portuguesa da última obra de Maria Calvo Charro “Saber Educar Rapazes e… Raparigas” – Guia de Educação Diferenciada para pais e professores.
MktOnline – Que objectivos designaria, como fundamentais, a curto e longo prazo?
Jorge Maciel – No curto prazo, gostaríamos de despertar o interesse de todos os educadores do país para a necessidade de reflectir sobre estas questões. Procuraremos promover um debate sobre as razões, as vantagens, as dificuldades da escola mista, olhando sem preconceitos a educação diferenciada como alternativa que vale a pena ter em conta. No médio e longo prazo pretendemos estimular em Portugal uma análise científica e uma reflexão pedagógica sobre pedagógica sobre a educação diferenciada.
No nosso horizonte está, em definitivo, a questão da liberdade de escolha pelos pais da escola para os seus filhos que, em última análise, permitirá que apenas o projecto educativo e a qualidade pedagógica definam as melhoras escolas privadas ou públicas. Isto exige que ajudemos os poderes públicos a perceberem que têm obrigação de garantir uma educação de qualidade para todos os portugueses, mas não têm o direito de se assumirem como o “único educador”.
MktOnline – Verificamos recentemente a organização de um evento dedicado exclusivamente ao ensino diferenciado. Qual o impacto deste seminário no seio da população envolvida?
Jorge Maciel – O Seminário sobre educação diferenciada que os Colégios Fomento organizaram no Porto, no passado dia 12 de Fevereiro, com a presença de especialistas internacionais, foi um momento de reflexão e diálogo que despertou em muitos dos presentes o desejo de aprofundar os seus conhecimentos sobre esta forma de organizar a educação. Continuam a chegar-nos reflexos desse encontro que se propaga a muitos outros agentes educativos, a alguns meios de comunicação social, a organizações internacionais, entre outros.